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terça-feira, 14 de julho de 2009

Vira-latas




Ao publicar “CACHORRO VIRA-LATAS” fiquei devendo aos meus leitores um texto sobre estes simpáticos animais. Já que a intenção era escrever sobre sementes selecionadas geneticamente, e o cão destinava-se a ser somente um auxílio à compreensão do assunto, uma espécie de fio condutor que nos iria permitir encontrar o caminho ao âmago dos nós górdios criados pelos humanos quando começaram a caminhada do cruzamento seletivo de espécies. Por isso, utilizando um pouco partes daquele texto, e, para fazer justiça, escrevo algo a respeito dos SRD. Habitualmente denominamos vira-latas os cães sem dono que vagam pelos centros urbanos em busca de alimento, e que, no afã de conseguiram algo para se alimentarem, costumam virar latas de lixo. Na verdade, o vira-latas é muito mais que um cão abandonado, é um sobrevivente. É o animal que os veterinários costumam classificar como SRD – Sem Raça Definida – mas que possui o melhor aparato genético para sobrevivência, sob quaisquer condições. Desde que o homem paleolítico domesticou o lobo asiático, procurou desenvolver nos descendentes obtidos a partir das matrizes lupinas, características ou qualidades tais que cumprissem certos requisitos, desenvolveu as centenas de raças que conhecemos hoje. Só que, em troca desses atributos úteis aos humanos, as raças “depuradas” a partir da espécie original deixaram para trás outras virtudes que as tornaram menos aptas, provando que em seleção genética artificial não existe almoço grátis. Isso quer dizer que um cão de caça não é necessariamente tão inteligente quanto SRD, por exemplo; tampouco um cachorro desenvolvido para guardar ovelhas ou propriedades deverá ter a mesma resistência a doenças que o SRD, também. Uma pesquisa realizada numa universidade da Escócia, utilizando inclusive testes de QI, concluiu que cachorros vira-latas são mais inteligentes que aqueles que têm pedigree, segundo publicação da BBC Brasil em seu saite. O estudo utilizou 80 cachorros. De acordo com os cientistas, os vira-latas apresentam melhor noção de espaço e resolvem problemas com mais facilidade do que os cães de raça. O cachorro mais inteligente foi uma mistura das raças Collie e Spaniel, que atingiu nota máxima em todos os testes. O segundo lugar foi ocupado por quatro cães com raças misturadas: uma mistura de Labrador com Spaniel, outra de terrier Jack Russell com Cocker Spaniel, um Pastor Alemão com Labrador e uma Lhasa Apso com Poodle. Os filhotes que tinham a raça Collie na mistura eram mais inteligentes que outros cachorros vira-latas. O estudo concluiu, por fim, que a polícia deveria treinar cães vira-latas e não confiar apenas nos pastores alemães de raça pura. A mistura genética que a natureza levou milhões de anos para desenvolver dotou os animais de aptidão para viver e multiplicar-se sob as condições mais adversas. Enquanto os cães de raça pura foram selecionados por suas qualidades, geralmente, de beleza, porte, grau de agressividade, pelagem ou outros. Genes de herança autossômica recessiva que não favoreçam a inteligência podem, perfeitamente, estar causando um "efeito fundador" nesses cães. (Efeito fundador acontece quando há formação de uma colônia separada a partir da população original, por dispersão e, após várias gerações, ocorre isolamento reprodutivo, ou seja, os descendentes da colônia isolada tendem a reproduzir, com mais freqüência, genes dos espécimes que a constituíram, sendo que, se estes espécimes tiverem certas particularidades, estas tornam-se comuns nos descendentes). Os da raça Collie tiveram algum grau de seleção devido à noção de espaço e resolução de problemas, pois originalmente eram cães pastores. A pesquisa foi feita com cães resultante de mistura de raças bem definidas. Há indícios que cães descendentes de misturas caóticas de raças, ou seja, SDRs com genes vindos de várias raças, vira-latas bem definidos como tais, tenham ainda tais capacidades mais desenvolvidas. Um vira-latas sempre aparenta saber para onde vai e o que quer, com seu jeito decidido. E, se parado, tem aparência altiva, mostra a segurança de quem está no lugar devido, na hora certa. Humanos, por mais que saibam para onde ir, sempre têm jeito um tanto patético dos perdidos no mundo. Parados, mal sabem onde pôr as mãos. Por isso, inventaram os bolsos e o hábito do fumo. Cães não têm bolso e não fumam, talvez por isso, saibam onde põe as patas. E, assim, os cães de raça, com suas designações ostentosas e pedigrees que estendem suas linhagens a muitas gerações pretéritas, podem ser escolhidos, e são, por seus donos, de acordo com as preferências ou necessidades destes. O vira-latas, por sua vez, prefere e sabe fazer escolhas ele mesmo, normalmente é ele que adota o dono. Sem árvore genealógica a lhe conferir nobreza, atravessa a rua sozinho, depois de olhar para ambos os lados, coisa que o homem com toda sua inteligência e empáfia nem sempre faz. Há, sem dúvida, mais dignidade em um vira-latas urbano na sua independência e auto-suficiência, que em um dálmata numa exposição canina, ou um poodle no colo da madame. Os inconvenientes da sarna, da exposição a microorganismos perversos, da fome, dos atropelamentos, das pedradas e de dormir ao relento dão fibra à sua alma e rigidez ao seu corpo, quase sempre “sarado”. O vira-latas nos ensina a sermos felizes com pouco. Mesmo quem não tem nada pode ter um cão de rua, desde que ele queira. Mendigos e loucos conversam com um vira-latas de igual para igual, e este lhes lambe as mãos. Se repararmos a chusma de cães atrás de uma única cadela, podemos ver a seleção natural em plena atuação. Linhagens inteiras de vira-latas foram concebidas e fundadas em madrugadas silenciosas das urbes de todo o planeta. Vira-latas existem aos montes pelas ruas, contudo, nenhum igual ao outro. Parecidos quase sempre, iguais nunca. Em sua mixórdia genética, ele é antes de tudo um forte. Nunca foi vacinado ou precisou de qualquer auxílio veterinário para sobreviver. Quando perguntam por aí: se você fosse um bicho qual seria? A maioria responde coisas como cavalo puro sangue, pantera, leopardo ou faisão, animais bonitos e considerados nobres. Eu também me fiz essa pergunta e cheguei à resposta que me satisfaz plenamente: gostaria de ser um vira-latas. Dos mais comuns, tamanho médio e sem cor definida.


Jair Lopes


http://www.jairclopes.blogspot.com/

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